segunda-feira, 11 de maio de 2009

a matéria das palavras


estamos aqui. interrogamos símbolos persistentes.
é a hora do infinito desacerto-acerto.

o vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.

estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.


ana hatherly




tu estás aqui
estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-las para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui


ruy belo


não sei como dizer-te que a 
minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.

não sei o que quer dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
_eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim te procuram.

quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em turbilhão de um dia
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha cara ardesse pousada na noite.

e então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo

não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.


herberto helder

um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

um dia o vento estará maduro.


albano martins, in vocação do silêncio
1950-1985; 1990

estalacttite IV, VI e VIII



localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.

algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar

caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.


in "micropaisagem"
carlos de oliveira

as palavras



as palavras ficam sem a certeza
gastam-se com a saliva ácida de
quem assiste ao outono: as folhas
velhas, a chuva miudinha que
molha tolos, os agasalhos que  cobrem
os teus braços magros sem abraços

o outono vive em casa, permanentemente em ti
mas eu sei de uma primavera...

o silêncio que me dás ou as palavras parcas 
ensinam-me a não esperar senão pelo fim 
de um caminho que já não conhece o abismo

agora, eu sei como viver sem o concreto
a não ser a certeza de mim e do meu corpo que
se alimenta das maçãs de um pomar sem dono, 
sem pecado, nem preconceito, nem dor

a dor é uma invenção das consciências e
da escravatura do ego

explicação da eternidade



devagar, o tempo transforma tudo em tempo. 
o ódio transforma-se em tempo, o amor 
transforma-se em tempo, a dor transforma-se 
em tempo. 

os assuntos que julgámos mais profundos, 
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, 
transformam-se devagar em tempo. 

por si só, o tempo não é nada. 
a idade de nada é nada. 
a eternidade não existe. 
no entanto, a eternidade existe. 

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos. 
os instantes do teu sorriso eram eternos. 
os instantes do teu corpo de luz eram eternos. 

foste eterna até ao fim.



josé luis peixoto

no sótão



vivo no sótão. entro nele e tenho uma árvore robusta, com uma copa verde repleta de frutos roxos. à beira do tronco, nasceram flores vermelhas que dançam uma música de verão. é a parte mais alta do sótão e só nela consigo permanecer erecta.

junto à porta, fica uma mesinha de cabeceira, onde depositei a minha caixa de cristais, os cd´s de meditação, os livros de poesia, o queima-incenso e as fotos da mariana e do jorge. nela arde, ainda, a vela do silêncio absoluto. é um móvel de tons verde, azul e amarelo, onde acabo de pousar a caixa prateada dos cigarros e uma caneca de chá de cidreira.

sento-me num canto da cama, com as costas fixas numa almofada e cubro-me com a manta que hoje é da cor do amor incondicional. e penso nos dias de quase inverno, como um quadro de paisagens mortas que eu pinto com as tonalidades do arco-íris.

é bonito o quarto onde eu moro. (apesar de frio). é o quarto onde vou dormir, apenas. mas que hoje me vejo a contemplar. o armário improvisado da roupa, a casinha de bonecas, o macaco que olha as estrelas pelo tejadilho, a foto da menina que aqui viveu antes de mim, rasgam-me um sorriso e pensam-me memórias felizes dos tempos inocentes.

(e agora, quero esvaziar a cabeça de todos os contratempos e pensar no amanhã como um dia perfeito, apesar desta invicta cinzentona).