
(cacilhas) daqui parte o barco do amor. e eu vou nele com o silêncio de quem deixa viver as memórias. o barco rasga o tejo até ao cais do sodré, por um corredor de espuma branca. é uma manhã nova e clara e diz-me que o caminho não é feito de expectativas, mas de desafios. eu deixo-me ir, embalada pela viagem que finaliza após a partida. "é pouco" - digo-me. "mas é melhor que nada".
o homem que guarda a cidade das ilusões obriga-me a esperar pela hora em que todos irão dormir. eu observo-os à entrada do portão principal, cansados da manhã de luz. (apenas esperam, com gestos moribundos). quando, finalmente, lhes é permitida a entrada, eles descem as escadas ao inferno, com bocejos grandes. alguns olham para os pés, outros para o céu quadrado de estrelas artificiais.
sigo-os porque assim escolhi. vou também dormir um pouco do sono que mata. para trás fica o tejo e o sonho: da manhã clara, da espuma branca, das gaiovotas que ensaiam um ballet mudo e que tem lugar na minha compreensão.
(e tudo acaba na chegada)
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