quinta-feira, 9 de julho de 2009

naquele tempo



naquele tempo éramos dois astros

a brilhar um para o outro


tu estendias o teu braço (de astro)

e tocavas os meus lábios


esperavas as palavras e os beijos

e eu dava-te o silêncio


esperavas a minha língua e a minha saliva

como se fossemos só língua e saliva


e eu tinha medo que as nossas línguas

se enrolassem uma na outra


tinha medo de me deixar levar

para o coração: o desconhecido

domingo, 14 de junho de 2009

chico buarque - o meu amor

resistente



chamo pelo teu nome
para lá do teu nome

um dia disseste-me
que gostavas de tirar os panos
da minha boca

um dia disseste-me
que eu era o mundo
que querias habitar
e que atravessavas
todos os sinais vermelhos
para vires ao meu encontro

tenho os olhos a arder
por ti
(para ti)

não precisas vir
os olhos ardem
só de imaginar
a tua respiração

fica
onde tu quiseres
(dentro da casa)

eu atravesso as paredes
para perto de ti
e fico apenas
a contemplar-te

qual é a cor e o cheiro do teu amor?



deixo-te por um segundo
enquanto espreito a festa
e cheiro os manjericos
e as sardinhas assadas

levo as minhas pernas
que vão querer voltar
nem que seja para te ver
fechado em ti

nem que seja para escutar
os teus passos silenciosos

nem que seja para te imaginar
ao meu lado
a sorrir e a dizer palavras
com os olhos

gostava
que as tuas palavras descessem
até à ponta dos teus dedos
e me tocassem com um pensamento
leve e livre

ficaria a saber
de que cor é o teu amor
e a que é que cheira

escrever o livro



é por eu voltar a ser criança
que te fechas dentro de ti

se fosse só o muro
eu arranjaria forma de o transpôr
para te encontrar do outro lado
e pelo menos te olhar

dentro de ti
eu não entro:
não tenho a autorização
ou o passaporte

por isso, observo unicamente
o teu silêncio
ou a tua solidão

que na tua solidão
sintas a verdadeira força de decidir
depois de compreenderes os sinais

és tu que deves concluir o nosso livro
ou continuar a escrevê-lo a vinte dedos

segunda-feira, 11 de maio de 2009

a matéria das palavras


estamos aqui. interrogamos símbolos persistentes.
é a hora do infinito desacerto-acerto.

o vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.

estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.


ana hatherly




tu estás aqui
estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-las para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui


ruy belo