domingo, 14 de junho de 2009

chico buarque - o meu amor

resistente



chamo pelo teu nome
para lá do teu nome

um dia disseste-me
que gostavas de tirar os panos
da minha boca

um dia disseste-me
que eu era o mundo
que querias habitar
e que atravessavas
todos os sinais vermelhos
para vires ao meu encontro

tenho os olhos a arder
por ti
(para ti)

não precisas vir
os olhos ardem
só de imaginar
a tua respiração

fica
onde tu quiseres
(dentro da casa)

eu atravesso as paredes
para perto de ti
e fico apenas
a contemplar-te

qual é a cor e o cheiro do teu amor?



deixo-te por um segundo
enquanto espreito a festa
e cheiro os manjericos
e as sardinhas assadas

levo as minhas pernas
que vão querer voltar
nem que seja para te ver
fechado em ti

nem que seja para escutar
os teus passos silenciosos

nem que seja para te imaginar
ao meu lado
a sorrir e a dizer palavras
com os olhos

gostava
que as tuas palavras descessem
até à ponta dos teus dedos
e me tocassem com um pensamento
leve e livre

ficaria a saber
de que cor é o teu amor
e a que é que cheira

escrever o livro



é por eu voltar a ser criança
que te fechas dentro de ti

se fosse só o muro
eu arranjaria forma de o transpôr
para te encontrar do outro lado
e pelo menos te olhar

dentro de ti
eu não entro:
não tenho a autorização
ou o passaporte

por isso, observo unicamente
o teu silêncio
ou a tua solidão

que na tua solidão
sintas a verdadeira força de decidir
depois de compreenderes os sinais

és tu que deves concluir o nosso livro
ou continuar a escrevê-lo a vinte dedos